Ciclo de entrevistas com especialistas (Emir Suaiden)

Emir Suaiden (Ex Diretor do IBICT, prof. Titular da UNB e Coordenador Geral do Mapa de Inclusão Digital) fala sobre inclusão digital e política de informação em entrevista a Barbara Coelho

Arquivo Fiocruz

Entrevistadora (Barbara Neves): Para começar, eu gostaria de saber do senhor qual sua percepção sobre inclusão digital.

Entrevistado (Emir Suaiden): Inclusão digital, como qualquer tipo de inclusão, ela tem um conceito assim muito controvertido. Por exemplo, quando se fala na exclusão social, se imaginava que exclusão era só para as pessoas pobres e marginalizadas. Hoje você pode ter locais acadêmicos, locais de excelência, onde se tem o problema da exclusão. Então ela é assim de forma muito compartilhada, muito dialética, mas por quê? Porque o ensino brasileiro, desde o ensino fundamental, o sistema não conduz o aluno para a inclusão social. E a inclusão digital é mais complexa porque tende de um comportamento cultural, de um comportamento ético e depende também de tecnologia. Se você tem problemas, como poder aquisitivo, você terá dificuldades em ser incluída digitalmente. Se você tem problemas de capacidade intelectual, também terá dificuldades. Então por isso, é muito complexo. E para mim, o fundamental na questão da inclusão é que se tem que incluir o ser humano em sua totalidade. Entendeu? Não é somente ele aprender entrar no Word ou na internet, ele tem que ter capacidade de avaliar a informação, por exemplo, somente no caso dos sites educacionais no Brasil você tem um exemplo. Pois o indivíduo não deve ser dependente do site. Ai é que vem a questão da competência informacional, ou seja, você tem que ter competência para avaliar a autoridade de quem escreveu aquilo, avaliar o tema, a atualização do tema, quer dizer, fazer comparação com outros temas que você ler. Por isso que o Brasil até hoje é um país que tem poucos pesquisadores e muito menos patentes; por que?, porque você não forma o pesquisador de fim nisso. Não só falar que o pesquisador é pós-graduação. Não. Então, por isso que a definição é complexa. Eu sempre faço uma analogia da inclusão digital com a formação de um público leitor. Por parte da CP, no caso do leitor, se tem uma indústria editorial forte, se tem bibliotecas porque depende muito do modelo mental da pessoa. O acesso é fácil, mas você pode morar ao lado de uma grande biblioteca e não utilizar. Eu vejo na região da UNB que se uma biblioteca disponível durante 24 h e as pessoas não usam, tendo acesso. Então você tem na América Latina, e Caribe principalmente, como você não tem público leitor, é grave demais a questão da inclusão digital porque está pré-dispões hábitos de leitor e tecnologia também. Então você tem que formar. Tem que capacitar, avaliar e mudar essas condições no indivíduo, que está acostumado na cópia de dicionários e enciclopédias, no (ctrl C e ctrl V). É sempre uma cultura reprexa, então se tem que mudar esse contexto de exclusão digital.

 

Entrevistadora (Barbara Neves): O senhor acha que estamos vivendo um segundo momento da exclusão digital? (Quero dizer antes, no primeiro momento da Implementação da Socinfo, o Governo se voltou mais para infraestrutura. Hoje em dia como na palestra de ontem se houve falar em necessidade de conteúdo e mediação). E esse momento poderia ser chamado de uma abordagem cognitiva da inclusão digital?

Entrevistado (Emir Suaiden): É. Porque o primeiro momento foi muito bom ele elevou extraordinariamente a questão do custo do Brasil. Por que o Governo anterior, o primeiro mandato de FHC, ele entendeu Sociedade da Informação como informatização da sociedade. Isto foi um erro crônico porque ele criou um projeto para mandar computadores para as escolas e o MEC já fazia isso com o livro e não criava o público leitor. Então hoje os países que tiveram hesito em acabar com a exclusão social implantaram um programa de inclusão que não era só baseado no computador. Você tem que ter capacitação, tem que ter metodologias de mediação da informação, competência informacional e alfabetização da informação. Porque é a mesma coisa, por exemplo, os anglo saxões nascem com essa capacidade de leitura que nós não temos. Então para que a grande maioria do povo brasileiro possa ter acesso à leitura você tem que utilizar metodologias de mediação da leitura porque sozinho ele não chega. E o problema diz que é grave porque somente um leitor forma outro. Então realmente, hoje se percebe que existe uma consciência física de inclusão digital e toda essa questão de se trabalhar as competências informacionais, formar os pesquisadores, utilizar metodologias de mediação da informação e formar um novo pesquisador. Então hoje está cada vez mais claro que não é só distribuir computadores. O custo do computador baixou muito e isso ajuda, mas não é isso que irá fazer com que as pessoas se incluam. Inclusive eu vi a alguns anos atrás um Deputado fazendo um discurso que na cidade dele seriam todos incluídos digitalmente porque todos teriam MPI. Quer dizer isso é uma visão distorcida, pois você tem que aplicar metodologias. Você não pode ter uma cultura complexa e passiva diante do computador. Ou seja, tem que se formar esse leitor crítico; E para o leitor crítico o que interessa é informação em tempo real. Então eu acho que essa capacidade cognitiva está sendo levada cada vez mais em conta HOJE.

 

Entrevistadora (Barbara Neves): E na formulação das novas políticas públicas, voltadas para as questões de informação, o senhor acha que estas questões estão sendo levadas em consideração?

Entrevistado (Emir Suaiden): Sim. Porque o Ibict está, praticamente, recuperando o tempo perdido da inclusão digital. Então nós partimos que para se fazer um planejamento, para se criar uma política de inclusão, o primeiro passo é o diagnóstico – que ninguém tinha – por isso que criamos o Mapa da Inclusão Digital, visando perceber as melhores experiências. Em segundo, estamos levando nossos programas junto a FUNAI, ao MEC. Assim essa política de inclusão é baseada na valorização do conhecimento, na cognição do conhecimento, levando metodologia e incentivando que as pessoas parem de copiar. Pois para você transformar um sujeito em pesquisador, este não pode copiar. Então, nós estamos valorizando muito isso, pois temos experiências no Ibict que todos os problemas do ensino fundamental e ensino médio, por exemplo, a maioria dos alunos tem horror a matemática. Nós temos pessoas no Ibict que faz o ensino da matemática utilizando o computador e software adequado e os alunos ficam extremamente motivados. Quer dizer, devemos acabar com esses problemas, ou seja, escrever adequadamente as políticas. Então qual é o problema? Você tem que motivar. Porque, o que é fracasso escola? evasão, dependência e falta de qualidade. Se tem que recuperar esses traumas desde o descobrimento do Brasil. Ou seja se tem que levar o ensino, isso é o que tentamos fazer em todo os programas de inclusão do Ibict, é algo que motive o aluno. Ele tem que está motivado. E outra facilidade é que essa nova geração tem muita facilidade com as tecnologias. Isso facilita a criação do novo comportamento educacional, cultural e científico.